sábado, 24 de maio de 2014

01- O Verbo se Fez Carne

O Verbo se Fez Carne
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e nada do que foi feito foi feito sem ele;
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;
E a luz resplandesceu nas trevas, mas as trevas não a compreenderam.
Houve um homem enviado por Deus, que se chamava João.
Este veio por testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele;
Ele não era a luz, mas para que desse testemunho da luz.
Era a luz verdadeira, que alumia a todo o homem, que vem a este mundo.
Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas a todos os que o receberam deu ele poder de se fazerem filhos de Deus; aos que crêem no seu nome.
Que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.
E o verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória como Filho unigênito do Pai, cheio de graça e verdade". (S. JOÃO, I, 1 a 14).
Esta passagem dos Evangelhos é a única que, à primeira vista, parece encerrar implicitamente uma ideia de identificação entre Deus e a pessoa de Jesus; é também aquela sobre a qual se estabeleceu mais tarde a controvérsia a respeito do assunto.
A questão da divindade de Jesus foi sendo, gradualmente, suscitada. Nasceu das discussões levantadas a propósito das interpretações e alguns sobre as palavras — Verbo e Filho: mas foi somente no 4.° século que uma parte da Igreja a adotou. Este dogma, portanto, é o resultado de decisões humanas; não emana de revelação divina.
É preciso notar-se que as palavras supracitadas são de João e não de Jesus e admitindo-se que não tenham sido alteradas, não exprimem, na realidade, senão uma opinião pessoal, uma indução, onde se descobre o misticismo habitual da linguagem daquele escritor. Não podem, pois, prevalecer contra as reiteradas afirmações do próprio Jesus. Aceitando-se, porém, tais quais são, ainda assim elas não resolvem a questão no sentido da divindade, porque tanto se aplicariam a Jesus-Deus, como a Jesus-criatura de Deus.
De fato, o Verbo é Deus, porque é a palavra de Deus. Jesus, tendo recebido esta palavra diretamente de Deus, com a missão de a revelar aos homens, assimilou-a. A palavra divina que ele observou, encarnou-se nele. Ele a trouxe consigo, nascendo, e é com razão que disse: O verbo se fez carne e habitou entre nós. Jesus podia, pois, ser encarregado de transmitir a palavra de Deus, sem ser Deus, como um embaixador transmite as palavras de seu soberano, sem ser o soberano.
Segundo o dogma da divindade, é Deus quem fala; na outra hipótese, ele fala pela boca do seu enviado, o que não prejudica a autoridade das suas palavras. Quem autoriza, porém, antes esta do que a outra suposição? A única autoridade competente para cortar a questão, são as próprias palavras de Jesus, quando diz: "Eu não falo por mim; mas Aquele que me enviou, me prescreve por seu mandamento, o que devo dizer: a minha doutrina não é minha, mas sim d'Aquele que me enviou; a palavra que tendes ouvido não é minha, mas de meu Pai, que me enviou".
É impossível exprimir-se alguém com mais clareza e precisão. A qualidade de messias ou enviado, que lhe é dada em todos os Evangelhos, implica uma posição subordinada a quem lha deu; quem obedece não pode ser igual a quem manda.
João caracteriza esta posição secundária — e, por conseguinte, estabelece a dualidade das pessoas, quando diz: nós vimos a sua glória, a sua glória como filho único, que a devia receber do Pai; porque aquele que recebe, não pode ser o que dá, nem aquele que dá a glória, pode ser igual ao que a recebe. Se Jesus é Deus, possui a glória por si mesmo e não precisa que outro lhe dê. Se Deus e Jesus são uma mesma pessoa com dois nomes diferentes, não poderia existir entre eles nem supremacia, nem subordinação. Desde pois que não há paridade absoluta de posição, é que são duas pessoas distintas.
A qualificação de Messias divino não significa igualdade entre o mandatário e o mandante, mais do que entre um rei e o seu representante a de enviado real. Jesus era um Messias divino pela dupla razão de ter recebido de Deus a sua missão, e estar em relação direta com Deus pelas suas perfeições.
Allan Kardec  
"Obras Póstumas "

O ENSINO DA SEMENTEIRA

O ENSINO DA SEMENTEIRA


Certo fazendeiro, muito rico, chamou o filho de quinze anos e disse-lhe:

— Filho meu, todo homem apenas colherá daquilo que plante. Cuida de fazer bem a todos, para que sejas feliz.

O rapaz ouviu o conselho e, no dia imediato, muito carinhosamente alojou minúsculo cajueiro em local não distante da estrada que ligava o vilarejo próximo à propriedade paternal.

Decorrida uma semana, tendo recebido das mãos paternas um presente em dinheiro, foi ágil e protegeu pequena fonte natural, construindo-lhe conveniente abrigo com a cooperação de alguns poucos trabalhadores, aos quais recompensou generosamente.

Reparando que vários mendigos por ali passavam, ao relento, acumulou as dádivas que recebia dos familiares e, quando completou vinte anos, edificou reconfortante albergue para asilar viajores sem recursos.

Logo após, a vida lhe impôs amargurosas surpresas.

Sua Mãezinha morreu num desastre e o Pai, em virtude das perseguições de poderosos inimigos na luta comercial, empobreceu rapidamente, falecendo em seguida. Duas irmãs mais velhas casaram-se e tomaram diferentes rumos.O rapaz, agora sozinho, embora jamais esquecesse os conselhos paternos, revoltou-se contra as idéias nobres e partiu mundo afora.

Trabalhou, ganhou enorme fortuna e gastou-a, gozando os prazeres inúteis.

Nunca mais cogitou de semear o bem.

Os anos se desdobraram uns sobre os outros.

Entregue à idade madura, dera-se ao vício de jogar e beber.

Muita vez, o Espírito de seu pai se aproximava, rogando-lhe cuidado e arrependimento. O filho registrava-lhe os apelos em forma de pensamentos, mas negava-se a atender. Queria somente comer à vontade e beber nas casas ruidosas, até à madrugada.

Acontece, porém, que o equilíbrio do corpo tem limites e sua saúde se alterou de maneira lamentável. Apareceram-lhe feridas por todo o corpo. Não podia alimentar-se regularmente. Perdeu a fortuna que possuia, através de viagens e tratamentos caros. Como não fizera afeições, foi relegado ao abandono. Branquejaram-se-lhe os cabelos. Os amigos das noitadas alegres fugiram dele; envergonhado, ausentou-se da cidadea que se acolhera e transformou-se em mendigo. Peregrinou por muitos lugares e por muitos climas, até que, um dia, sentiu imensa saudade do antigo lar e voltou ao pequeno burgo que o vira crescer.

Fez longa excursão a pé. Transcorridos muitos dias, chegou, extenuado, ao sítio de outro tempo.

O cajueiro que plantara convertera-se em árvore dadivosa. Encantado, viu-lhe os frutos tentadores. Aproveitou-os para matar a própria fome e seguiu para a vila. Tinha sede e buscou a fonte. A corrente cristalina, bem protegida, afagou-lhe a boca ressequida.

Ninguém o reconheceu, tão abatido estava.

Em breve, desceu a noite e sentiu frio. Dois homens caridosos ofereceram-lhe os braços e conduziram-no ao velho asilo que ele mesmo construíra.

Quando entrou no recinto, derramou muitas lágrimas, porque seu nome estava gravado na parede com palavras de louvor e bênção.

Deitou-se, constrangido, e dormiu.

Em sonho, viu o Espírito do pai, junto a ele, exclamando:

- Aprendeste a lição, meu filho? Sentiste fome e o cajueiro te alimentou; tiveste sede e a fonte te saciou; necessitavas de asilo e te acolheste ao lar que edificaste em favor dos que passam com destino incerto...

Abraçando-o, com ternura, acrescentou:

— Porque deixaste de semear o bem?

O interpelado nada pode responder. As lágrimas embargavam-lhe a voz, na garganta.

Acordou, muito tempo depois, com o rosto lavado em pranto, e, quando o encarregado do abrigo lhe perguntou o que desejava, informou simplesmente:

— Preciso tão somente de uma enxada... Preciso recomeçar a ser útil, de qualquer modo.



pelo Espírito Neio Lúcio - Do livro: Alvorada Cristã, Médium: Francisco Cândido Xavier.

CE Caminhos de Luz